Cuidado para a solução não ser pior que o problema: os discursos políticos atuais e o caso de I Samuel 8.

on sábado, 9 de junho de 2018
"O povo pede um rei
1 Quando Samuel ficou velho, pôs os seus filhos como juízes de Israel. 2 O seu filho mais velho se chamava Joel, e o mais novo, Abias. Eles eram juízes na cidade de Berseba. 3 Porém não seguiram o exemplo do pai. Estavam interessados somente em ganhar dinheiro, aceitavam dinheiro por fora e não decidiam os casos com justiça.

4 Então todos os líderes de Israel se reuniram e foram falar com Samuel, em Ramá. 5 Eles disseram:

— Olhe! Você já está ficando velho, e os seus filhos não seguem o seu exemplo. Por isso, queremos que nos arranje um rei para nos governar, como acontece em outros países.

6 Samuel não gostou do pedido deles. Então orou a Deus, o SENHOR, 7 e ele respondeu assim:

— Atenda o pedido do povo. Não é só você que eles rejeitaram; eles rejeitaram a mim como Rei. 8 Desde que eu os trouxe do Egito, eles sempre me têm abandonado e têm adorado outros deuses. Agora estão fazendo com você o que sempre fizeram comigo. 9 Portanto, atenda o pedido deles. Mas avise essa gente, explicando com toda a clareza como o rei vai tratá-los.

10 Então Samuel explicou ao povo tudo o que o SENHOR lhe tinha dito. 11 Ele disse:

— O rei os tratará assim: tomará os filhos de vocês para serem soldados; porá alguns para servirem nos seus carros de guerra, outros na cavalaria e outros para correrem adiante dos carros. 12 Colocará alguns deles como oficiais encarregados de mil soldados, e outros encarregados de cinquenta. Os seus filhos terão de cultivar as terras dele, fazer as suas colheitas e fabricar as suas armas e equipamentos para os seus carros de guerra. 13 As filhas de vocês terão de preparar os perfumes do rei e trabalhar como suas cozinheiras e padeiras. 14 Ele tomará de vocês os melhores campos, plantações de uvas, bosques de oliveiras e dará tudo aos seus funcionários. 15 Ficará com a décima parte dos cereais e das uvas, para dar aos funcionários da corte e aos outros funcionários. 16 Tomará também os empregados de vocês, o melhor gado e os melhores jumentos, para trabalharem para ele. 17 E ficará com a décima parte dos rebanhos de vocês. E vocês serão seus escravos. 18 Quando isso acontecer, vocês chorarão amargamente por causa do rei que escolheram, porém o SENHOR Deus não ouvirá as suas queixas.

19 Mas o povo não se importou com o aviso de Samuel. Pelo contrário, eles disseram:

— Não adianta. Nós queremos um rei. 20 Queremos ser como as outras nações: queremos ter um rei para nos governar, para nos dirigir na guerra e lutar em nossas batalhas.

21 Samuel ouviu o que eles disseram e então foi e contou tudo a Deus, o SENHOR. 22 Ele respondeu:

— Faça o que eles querem. Dê a eles um rei.


Aí Samuel pediu a todos os homens de Israel que voltassem para casa."



Em um dos textos bíblicos que o Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil reserva para este domingo (Próprio 5), lemos a passagem em que o profeta Samuel, que foi o último líder "democrático" do antigo povo de Israel (coloquei entre aspas para entendermos que seria anacronismo comparar com as democracias modernas, embora houvesse grande liberdade e sentimento de que todos eram iguais perante a Lei), é questionado pelo povo que desejava ter um rei. Vale lembrar que não estamos falando aí de um rei como os monarcas atuais das monarquias parlamentaristas e sim de monarcas absolutistas, ditadores em outras palavras. 

Até então, o povo de Israel vivia sem um Rei (só Deus era seu Rei), havia um sistema bem livre para a época com os anciões aconselhando e ajudando os juízes a resolverem eventuais conflitos dentro do povo. Era perfeito? Não mesmo, tanto que os filhos de Samuel ao se tornarem juízes se tornaram corruptos. Vendo tantos escândalos de corrupção, o povo começa a clamar por um rei, um líder forte e absoluto como o das outras nações (mesmo que o povo dessas outras nações fosse mais massacrado pelo seu líder do que os israelitas).

Samuel, o profeta, sabia que isso seria terrível e que o povo que havia sido libertado da tirania do Faraó no Egito estava agora querendo um novo Faraó. Sim, ao invés de reparar as falhas do sistema, o povo queria ser escravo de um novo líder forte a absoluto. Essas não são conclusões minhas, Deus fala com Samuel e manda ele avisar o povo sobre o que estavam pedindo. Entretanto, o povo preferiu o caminho errado. O resultado sabemos: Um rei louco e homicida (Saul) seguido por um rei que apesar de bom teve graves falhas (Davi) e até matou seu soldado mais leal para poder se deitar com a sua esposa, outro rei que era sábio mas no fim da vida se esqueceu de muito do sabia e começou cometer alguns erros que antes condenava (Salomão), daí em diante o reino se dividiu, irmão lutou contra irmão e em ambos os Reinos (Israel e Judá) houve uma sequência de governantes piores que os reis anteriores e mais corruptos que os filhos de Samuel. Tudo isso só acabou quando o povo foi dominado por outros povos, o que trouxe igualmente sofrimentos para esse povo.

Será que é coincidência quando vemos alguns gritarem pedindo ditaduras, torturas e outros métodos terríveis como sendo a solução para os problemas da democracia atual e de sua corrupção? Será que continuamos a não escutar a voz de Deus, recusando a Ele e aos seus profetas, para abraçarmos a tirania que nos fará mal (e fazemos isso apenas por outros países estarem na mesma onda)?

Que o alerta do texto bíblico possa nos livrar dessas tentações que só nos causarão mais e mais sofrimento.

Desabafo Manifesto

on sexta-feira, 25 de maio de 2018
Temer demonstra o seu maior prazer: atacar o povo. Cansado de só retirar direitos e deixar o povo falido, agora precisa deixar ele agredido e o seu fetiche sádico vai ser realizado com os caminhoneiros.

A "esquerda" necrogovernista insiste em achar que não deve se juntar ao movimento e impulsionar realmente o #ForaTemer, talvez espere fazer sua revolução nos copos do Starbucks.

Alguns caminhoneiros estão iludidos com sandices fascistas e pedindo intervenção militar? É verdade, mas são uma minoria e que logo vai acordar quando sentir no rosto os tapas dos seus interventores outror desejados.

#SomosTodosCaminhoneiros ainda é algo amorfo, não está totalmente claro o que querem, cada cabeça é uma sentença, mas valeria a pena dialogar e até mostrar eventuais equívocos ditatoriais. Demonizar não é a saída, dialogar sim.

A sociedade está apoiando ele e nunca nos apoiou (educação, saúde, segurança, ...) e isso é verdade, mas a culpa não é dos caminhoneiros e sim de toda a sociedade que nunca nos deu qualquer valor mesmo.

CRISE, PECADO E OPRESSÃO NO RIO DE JANEIRO PÓS-OLÍMPICO.

on sexta-feira, 18 de maio de 2018
Conheça o CEBI: https://www.cebi.org.br/

*Publicado na Revista "Por Trás da Palavra" do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) de Novembro/Dezembro de 2017, Ano 35, nº 332.
Se existe um exemplo emblemático de toda a crise política, econômica e social no Brasil, de fato é o Rio de Janeiro (tanto a cidade quanto o Estado). O Rio de Janeiro viveu recentemente a euforia da Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016), grandes eventos internacionais que porém pouco ou nenhum benefício deixaram para o seu povo, mas deixaram muitas mazelas como legado contra o povo mais humilde: “Os justos levam em conta os direitos dos pobres, mas os ímpios nem se importam com isso.” (Provérbios 29:7).
No preparativo para tais eventos já era nítido a quem os governos estavam servindo e que não era ao povo mais humilde e sim ao capital especulativo. De fato não é possível servir a Deus e ao dinheiro (Lucas 16:13) e nossos governantes, bem como as elites que os sustentam, não tardaram a escolher o seu lado. A política de remoções de comunidades carentes para abrir espaço para a especulação imobiliária, que parecia sepultada na tenebrosa era Lacerda, foi a tônica dos preparativos com várias comunidades sofrendo com os despejos: Vila Autódromo, Asa Branca, …
A especulação imobiliária, o problema da concentração das terras e casas nas mãos de poucas pessoas, que acabam empurrando os mais pobres para localidades mais distantes visando atender os interesses das classes privilegiadas, já era denunciada pelos profetas bíblicos: “Ai dos que ajuntam casas e mais casas, dos que acrescentam um campo a outro, até que não haja mais onde alguém possa erguer sua casa, e eles se tornem os senhores absolutos da terra!” (Isaías 5:8).
Tanto a remoção não privilegiava o povo, como não era necessária, que com muita luta alguns moradores da Vila Autódromo conseguiram continuar a morar no mesmo local. Igualmente, nota-se que não era apenas por conta dos grandes eventos, já que após os mesmos, o fantasma das remoções retorna quando a prefeitura ameaça remover os moradores da comunidade do Rio das Pedras (comunidade humilde que fica ao lado áreas nobres da capital fluminense como o Itanhangá, Alto da Boa Vista e Barra da Tijuca).
Falando em lutas, desde as jornadas de protesto em 2013, passando pela luta dos moradores contra as remoções, a luta dos servidores públicos para receberem os seus salários, as lutas contra os leilões do pré-sal e tantas outras, a resposta das autoridades é sempre a mesma: repressão. A violência contra o povo se viu em um nível alarmante, protestos pacíficos foram reprimidos com um sadismo assustador, a violência era a arma para tentar calar o povo (sempre foi, não é atoa que seguimos o Cristo crucificado com seus discípulos martirizados pelo grande Império), não é atoa que diz a Bíblia: “Como um leão que ruge ou um urso feroz é o ímpio que governa um povo necessitado.” (Provérbios 28:15).
Como resultado do pós-olimpíadas, além de obras faraônicas subaproveitadas como a vila dos atletas na Ilha Pura (que continua sem uso), o Centro Olímpico subaproveitado, sistemas de transportes mal planejados (ou melhor, planejados de acordo com os interesses das empresas e não com os interesses do povo), vieram as notícias que todos já sabíamos: os esquemas de corrupção (alguns ligados a realização dos eventos) e os gastos exorbitantes com estruturas desnecessárias levou a falência econômica do Estado do Rio de Janeiro e uma forte crise na capital do mesmo.
Com a crise, os governos novamente optaram por cortar gastos, porém não fizeram o corte no uso indevido do dinheiro público, e sim resolveram realizar cortes nos repasses para a saúde, educação e outras áreas, chegando a cortar o salário dos servidores estaduais que estão a meses sem receber o que lhes era devido. Meses sem salário, sem o sustento, levando a muitos servidores passarem fome, serem despejados e passarem por várias outras situações terríveis, alguns inclusive morreram nesse período por problemas de saúde que possivelmente foram agravados por todo o estresse e necessidades gerados pela falta do sustento mais elementar para si e para os seus, como no provérbio bíblico: “Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme” (Provérbios 29:2).
Enquanto os servidores amargam meses sem receber o seu sustento e o povo amarga a falta de serviços públicos dos mais básicos, o Estado do Rio de Janeiro tem seus 3 últimos governadores presos por envolvimento em escândalos de corrupção, vivendo vidas de luxo as custas do sangue e do suor do povo de Deus, além deles secretários e deputados se encontram na mesma situação (e olha que vários colegas deputados continuaram tentando manter os corruptos livres, enquanto mandavam a polícia para reprimir o povo que protestava contra os absurdos), de fato, parece-nos que o apóstolo Tiago escreveu para o nosso Estado e seus líderes:
Ouçam agora vocês, ricos opressores! Chorem e lamentem-se, tendo em vista a miséria que lhes sobrevirá. A riqueza de vocês apodreceu, e as traças corroeram as suas roupas. O ouro e a prata de vocês enferrujaram, e a ferrugem deles testemunhará contra vocês e como fogo lhes devorará a carne. Vocês acumularam bens nestes últimos dias. Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que por vocês foi retido com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Vocês viveram luxuosamente na terra, desfrutando prazeres, e fartaram-se de comida em dia de abate. Vocês têm condenado e matado o justo, sem que ele ofereça resistência.” (Tiago 5:1-6)
Como nas diversas crises relatadas nas Escrituras, que tiveram o pecado e a maldade como origem, Deus levantou profetas no meio de seu povo, Deus está nos chamando para denunciarmos tudo o que está ocorrendo em nossa terra e com o nosso povo. Que Deus tenha misericórdia de nós todos. Amém.

Por Professor Morôni Azevedo de Vasconcellos
Professor de geografia, teólogo, especialista em geografia do Brasil, mestre em educação e postulante ao ministério ordenado na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.